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Diabetes mudou a minha vida

Um dos meus primeiros trabalhos nos Estados Unidos foi para uma empresa que fabicava placas graficas para computadores, a Number Nine. Minha funcao era criar um programa que demonstra-se o que a placa fazia, que era exibido em congressos e feiras.

Foi durante uma dessas feiras que minha vida virou de cabeça para baixo.

No verão de 1989, a SIGRAPH – tradicional conferência internacional de computação gráfica – ia acontecer em Boston, aonde eu morava, e eu estava muito ocupada tentando finalizar o demo e instalar tudo nos computadores que iam ficar no nosso estande da feira.

Era um verão muito úmido e quente. Eu trabalhava doze horas por dia, inclusive nos finais de semana. Depois ia para a academia e malhava feito louca. Em resumo: estava exausta o tempo todo.

– Estou preocupada com você, Soraya. Você não parece nada bem – Lucila me disse quando eu me preparava para ir à feira.

– Você dorme bastante, mas está sempre cansada e emagreceu. Dá para ver no seu rosto! Acho que você devia dar um pulinho no médico...

– Não, não, Lu. Não preciso de médico. Eu estou no meio do caos, mas logo passa. A SIGRAPH vai acabar e vou ficar ótima. Aí tiro uns dias para relaxar e fico nova em folha. Você vai ver.

Lucila já havia comentado comigo antes que eu estava tomando mais água do que o habitual. Mas eu justifiquei com o calor que andava fazendo e aí a gente não tocou mais no assunto.

Só no segundo dia da feira consegui acabar de instalar o demo em nossos dezenove computadores. Aí, com tudo funcionando, tive tempo até para pensar em acompanhar algumas das palestras da SIGRAPH. Só que eu estava me sentindo tão cansada que achei melhor não ver nada e ir direto para casa, tentar relaxar e repor minhas energias.

Mas quando cheguei em casa, nem consegui chegar na cama. Ao subir a escada do prédio, fiquei sem ar. E como estava de short, vi minhas pernas ficarem azuis. Sentei na escrivaninha para ver se achava forças para entender o que estava acontecendo comigo, mas segundos depois apaguei ali mesmo, em cima de uma pilha de livros. E foi assim que a Lucila me encontrou horas depois.

Lucila me levou direto para o hospital. O atendimento foi rápido e, quando a enfermeira colheu a primeira amostra de sangue, só de olhar para o tubo, disse: – Ela está entrando em coma diabética! Chame um médico! Correndo!

Eles espetaram uma agulha no meu braço, tubo de oxigênio na minha garganta e minutos depois eu estava completamente desligada. O que aconteceu nas horas seguintes eu só soube pela Lucila.

A doutora Jarman veio conversar com a Lu na sala de espera: – A Soraya tem o que chamamos de diabetes ketoacidosa, que ocorre quando o corpo não consegue mais converter açúcar em energia e começa a quebrar a gordura que estava armazenada no organismo. As próximas horas vão ser críticas. O corpo está totalmente desequilibrado. Todas as células estão famintas porque ela perdeu muitos nutrientes. Nós estamos colocando a Soraya no CTI, para poder estabilizar o nível de açúcar e repor todos os nutrientes perdidos.

– Você acha que ela pode morrer?

A médica balançou a cabeça com firmeza:
– Não. Eu fico feliz por poder dizer que ela vai sair dessa. Mas se vocês demorassem mais quinze minutos, teria sido tarde demais. Agora, a recuperação vai levar tempo e ela terá que aprender a se cuidar.

Eu passei horas apagada e quando acordei tive a nítida sensação de que um milagre havia acontecido e que eu agora estava tendo uma segunda chance, uma segunda vida. Para mim, era como se um caminhão tivesse vindo com tudo em minha direção mas, na hora agá, desviasse, evitando pegar-me em cheio.

Deixei o CTI só uma semana depois e ainda passei mais sete dias num quarto comum, para só depois ser liberada. Mesmo assim, antes de receber alta, tivemos uma sessão de explicações, porque eu precisa aprender a viver com diabetes do tipo 1. Doces, chocolates e sorvetes – as minhas grandes paixões – teriam que sumir do meu cardápio.

Nem pastilha comum eu podia chupar se estivesse resfriada. Não podia pular refeições, o que eu vivia fazendo quando estava muito ocupada no trabalho. A partir de agora, eu precisava ter hora certa para tudo, para que eu pudesse calcular quando e quanto comeria, quando precisaria fazer exercícios e, mais importante, quando precisaria injetar insulina em mim mesma.

Se você está gostando da estória volte semana que vem para ler o próximos capítulo.

Tio_juliao_Florentina
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